Desafios do turismo sustentável em tempos de coronavírus

Mari Campos

07 de julho de 2020 | 15h15

A pandemia do novo coronavírus atingiu a indústria do turismo em cheio. Mas agora, passados quatro meses da declaração de pandemia, é preciso começarmos a discutir de verdade outro efeito bem indigesto da Covid-19 no turismo: o baque na sustentabilidade da indústria turística. Como buscar um turismo verdadeiramente sustentável nestes tempos de coronavírus? Como garantir sustentabilidade em geral em uma época de tantos usos descartáveis?

Demos definitivamente um passo atrás na busca por um turismo mais sustentável nestes meses. A pandemia da Covid-19 já afeta negativamente as metas de redução do plástico de uso único na hotelaria a curto prazo, com diferentes redes que tinham anunciado previamente a eliminação do uso de plásticos descartáveis para 2021 ou 2022 já postergando suas próprias metas.

O The Brando, na Polinésia Francesa, é autossuficiente energeticamente e composta e recicla seu próprio lixo. Foto: Mari Campos

Além dos essenciais equipamentos de segurança descartáveis dos funcionários (que obviamente têm que ser mantidos), há diversas propriedades (sobretudo no Brasil) adotando novamente a prática de entregar ao hóspede toalhas, talheres, controles remotos e até alimentos embalados em sacos de plástico para tentar aumentar a percepção de higiene e sensação de segurança sanitária aos novos hóspedes. Hotéis que já estavam adotando garrafas d’água de vidro estão retrocedendo e voltando às garrafas plásticas pelo mesmo motivo – ainda que não haja absolutamente nenhuma comprovação científica de que garrafas de plástico sejam mais seguras em relação ao novo coronavírus que as de vidro.

Isso sem entrar em outro aspecto: muitos novos “protocolos” do setor estão sendo desenvolvidos por pessoas de repertório extremamente limitado, sem conhecimento sobre sustentabilidade, e estão sendo erroneamente transformados em legislação no Brasil. Temos hotéis e restaurantes por aqui que já tinham eliminado o uso de plástico descartável e por novas leis provisórias e pressões de associações do setor estão sendo forçados a trazer os temíveis plásticos de volta. Uma prática barata para o setor, mas sem comprovação científica de sua necessidade e que terá um impacto terrível se houver uso excessivo e, principalmente, descarte irresponsável deste material.

Acredita-se (segundo dados das Nações Unidas) que cerca de 13 milhões de toneladas de plástico cheguem ao mar a cada ano. Já estamos vendo as reportagens sobre máscaras e luvas descartáveis encontradas aos montes no mar, da Europa à Ásia. Mas até agora nenhuma rede hoteleira ou propriedade que esteja adotando a prática soube dizer exatamente como fará/está fazendo o descarte de tudo isso.

É urgente que planejemos viagens de maneira mais consciente e que viajemos de maneira mais responsável. Entender corretamente os termos chaves da sustentabilidade nos ajudam a saber exatamente que predicados buscar em hotéis e demais prestadores de serviços turísticos. Para onde exatamente vai o dinheiro que investimos nos hotéis e serviços das nossas viagens? Quais são as políticas da empresa sobre energia e lixo?  Comunicar ao prestador quais são nossas principais preocupações fazem com que tenham que nos ouvir – e, de repente, repensar seus modelos. Só assim poderemos continuar caminhando em direção a um turismo verdadeiramente sustentável, mesmo em tempos de coronavírus.

Empresas como a Porini Camps, que trabalham pela preservação do meio ambiente e bem-estar das comunidades locais, merecem nossa atenção na hora de planejar a viagem. Foto: Mari Campos

Empresas e propriedades do turismo que trabalham para preservar o meio ambiente, apoiar comunidades e cultivar biodiversidade merecem nosso apoio. E felizmente há empresas fazendo isso de maneira bastante séria e eficiente, como os já citados aqui Great Plains Conservation (Botsuana, Quênia, Zimbábue), Porini Camps (Quênia), The Brando (Tahiti),  Anavilhanas Jungle Lodge (Amazônia) e Pousada Mata N’ativa (Trancoso), apenas para mencionar alguns. Outras iniciativas importantes, como a incrível Documenta Pantanal (que completou agora um ano de atuação em maio), desenvolvem ações multimídias para chamar a atenção da sociedade para a urgência de preservar o meio ambiente.

No caso específico da Documenta Pantanal,  buscam transformar também agricultura, pecuária e o turismo no Pantanal brasileiro em algo realmente sustentável como um todo. Parte do grupo formado por estudiosos, empresários, artistas e produtores viajou no começo deste ano ao Delta do Okavango, na Botsuana, para aprender e poder gerar, enfim, um novo modelo de ecoturismo para o Pantanal – mas é preciso que hoteleiros e prestadores realmente abracem a ideia.

Urge que hotéis ao menos se preocupem com o descarte correto dos produtos descartáveis, apostem na reciclagem de tudo o que puder ser reciclado e que tenham políticas claras sobre consumo e geração de energia e lixo. E, claro, que nós, viajantes, também cobremos cada vez mais essa postura dos hotéis nos quais nos hospedaremos (quando for seguro viajar novamente), dos restaurantes e dos serviços turísticos em geral. Que priorizemos hotéis e prestadores que levam a sério a sustentabilidade ao decidirmos nossas futuras viagens. E que sejamos conscientes e coerentes também nas nossas posturas nas viagens, inclusive no que tange o turismo de massa e a maneira como nos relacionamos com destinos que visitamos em passeios bate-e-volta. Vou ainda mais longe: quantas pessoas você conhece que ainda nem sequer levam sua própria garrafinha de água reutilizável por aí? É nos pequenos hábitos que essa mudança tem que começar. E essa pausa forçada nas viagens a que todos nós fomos submetidos pode ser uma boa oportunidade de repensá-los

Quase seis meses de pandemia depois, e números de mortos e contaminados pela Covid-19 no Brasil ainda extremamente cruéis, eu ainda continuo em casa. Continuo esperando nossos números relacionados à doença cairem de maneira constante e significativa para sair por aí outra vez. Mas sei que essa não é a opinião de todo mundo, é claro, e que muita gente está começando a se sentir à vontade para retomar suas viagens em tempos de pandemia.

A decisão de viajar a lazer ou permanecer em casa neste final agosto- começo de setembro está em debate para muita gente; gerando inclusive várias discussões sobre que tipo de viagem poderia ser “aceitável” – e minimamente segura – nestes tempos. Há os que defendem que apenas viagens de carro a destinos próximos de casa seria aceitáveis, e outros já acreditam que, desde que os viajantes cumpram todos os protocolos de higiene e segurança (como lavar sempre as mãos, usar máscara a maior parte do tempo, manter o máximo de distanciamento social possível e ter sempre álcool-gel à mão), percorrer distâncias aéreas maiores também já seria ok. 

De qualquer maneira, se você já se sente pronto para suas primeiras escapadas em tempos de coronavírus, vale ter em mente algumas regrinhas durante todo o processo da sua viagem – inclusive no planejamento. Para zelar pela sua segurança e dos seus, pela segurança de todas as outras pessoas que cruzarão seu caminho e, é claro, para que você consiga realmente relaxar e renovar as energias (o que provavelmente é o que você busca, certo?).

A charmosa Provence Cottage, em Monte Verde. Foto: Divulgação

  1. Respeite as regras de segurança TODO O TEMPO

Não importa se você está indo viajar de carro ou de avião. Como no Brasil as regras não foram uniformizadas quanto à conduta em tempos de pandemia (e muitas vezes, quando existem, tampouco são claramente comunicadas), não sabemos o que esperar de postura dos “outros”. Sabemos que muitos hotéis estão cumprindo protocolos de segurança e que várias companhias aéreas também. Algumas pousadas estão fazendo um trabalho incrível para a reabertura segura. Aeroportos também criaram novas dinâmicas para ampliar a segurança de passageiros do check in ao embarque.

Mas esqueça aquele papo de assento do meio vazio nos aviões, do começo da pandemia. As companhias brasileiras infelizmente estão decolando com voos geralmente lotados. Então respeite as regras estabelecidas desde o começo: use máscara durante todo o voo e em qualquer ambiente público ou comum, seja nos aeroportos ou nos hotéis e resorts. Considere talvez também um face shield para os voos, dada a proximidade forçada com os demais passageiros durante toda a duração do voo.  Lave as mãos com frequência, mantenha o distanciamento social de outros hóspedes e viajantes e tenha sempre álcool gel à mão. Informe-se MUITO antes da viagem sobre quais as regras em vigor no destino, no trajeto e no hotel escolhido – isso é importantíssimo. Se todo mundo cuidar desses aspectos ao recomeçar suas viagens antes da vacina (seja agora ou mais pra frente), já temos meio caminho andado.

Foto: Mari Campos

2. Procure considerar opções isoladas

Procure por opções de hospedagem (ou destino) que naturalmente ou conceitualmente já favoreçam o distanciamento social nesta fase. Há inúmeras opções em vários cantos do Brasil, sejam pousadas, hotéis ou imóveis de temporada,  seja praia ou montanha, que não apenas estão respeitando as leis ao operar com capacidade reduzida mas que por sua própria filosofia e design já favorecem naturalmente o distanciamento entre acomodações e hóspedes em seus espaços públicos. 

3. Mantenha comunicação direta com o hotel antes da sua chegada 

Independentemente de ter reservado seu hotel em ferramentas online, direto ou através de um agente de viagem, comunique-se com o hotel antes da viagem para confirmar direitinho como as coisas estão funcionando por lá.  Seja por email ou telefone, como preferir. Sabemos que neste cenário de tantas incertezas restrições podem mudar a qualquer instante. Procure confirmar quais são as medidas de higiene e segurança no local, como está sendo servido o café, o que exatamente eles estão oferecendo aos hóspedes neste período, o que funciona e o que não funciona etc. E divida com o hotel o máximo de informação sobre você antecipadamente também, para que a equipe possa te receber da melhor forma possível – e com o mínimo de contato. 

Detalhe da linda Casa Turquesa, em Paraty. Foto: Divulgação

4.  Seja um bom hóspede. 

Depois de tantos meses fechados, a operação da maioria dos hotéis mudou completamente (mesmo!) para atender todas as necessidades de segurança impostas pela pandemia. E para que eles consigam manter a segurança de todos os hóspedes e de todo o staff, é essencial que TODOS, sem exceção, cumpram as regras estabelecidas pela propriedade. Sem burlar, sem “jeitinho”, sem “só dessa vez”. Leia atentamente os documentos enviados ou entregues no check in pelo hotel e procure cumprir todos os ítens, sem exceção.

Além da necessidade óbvia de manter o distanciamento social e usar a máscara nos ambientes públicos, é preciso prestar atenção em detalhes completamente novos para todos mundo, como a simples impossibilidade atual de sentar-se em uma mesa para o café da manhã e decidir mudar no meio da refeição porque vagou outra com melhor vista. Se todo mundo seguir as regras estabelecidas pela propriedade direitinho, fica mais fácil todo mundo relaxar como espera para curtir a viagem. 

Eu ainda vou esperar mais um pouquinho para recomeçar a viajar. Mas quando você se sentir realmente pronto para viajar novamente, não custa ter em mente estes cuidados 🙂

Fonte: https://viagem.estadao.com.br/blogs/sala-vip/turismo-sustentavel-em-tempos-de-coronavirus/

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